sexta-feira, 29 de junho de 2012

Brincadeira.


Por ser analfabeto formal
não me ensinou a matemática e suas operações.
Tampouco as regras gramaticais.
Me ensinou mais:
Não existe regra no mundo
capaz de conter as emoções.
Morador de rua
dos jardins do Mam.
Quando eu tinha o teto pra olhar
ele me mostrava a lua.
E se o cheiro cheirasse a poeira
ou o odor dos becos mijados.
Não me importa.
Os engomados ensabonetados
da Barra fediam pior.
Ele estava além de mim em tudo.
Quando me mostrou o cinema mudo
e dizia “Charli Chapli”.
Imerso no telão, alucinado.
Desbancava qualquer doutorado.
E eu, torpe e tapada
me perdi atrás da fala.
Mulato cor de canela.
Era pra ser uma brincadeira.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Qualquer coisa.

Tentando escapatória
dos carinhos hipócritas
e da falsa alegria.
Foi dormir numa pensão na Glória
e se desprender de moradia.
Encontrou na poesia
seu refugio, sua companhia.
Algum trago desse vinho.
Qualquer caminho
que a levasse pra ver o sol.
Qualquer coisa que sirva,
que se sinta!
Nenhuma emoção contida.
Mas a pobre da nossa amiga,
sem alternativa.
Aos vinte e dois anos de idade
foi morta pela sociedade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Esse poema..


Essa letra vai pra quem
na fila de um hospital
agonizou e morreu.
Mais uma vítima fatal
da incompetência do estado.
Essa é pra quem teve o casamento arranjado.
E o culpado?
Não se sabe, não se fala.
Essa letra é pra quem não cala.
Quem nos becos escuros da vida
de minisaia, foi estuprada.
E só ouviu “mereceu, era safada.”
Essa é pra danada
que adora dar a buceta
e por isso é discriminada.
Também vai pro morador de rua
que por gosto ou necessidade
não tem a liberdade
de dormir com a lua.
Essa vai pra sua
e pra minha grade.
E pra quem leva tapa de polícia
por ser negro e pobre.
Não sai na notícia,
a mídia encobre.
Essa é pro analfabeto
que queria ler e escrever
mas não tinha nem um teto
pra sobreviver.
E pros que tinham casas nas favelas
e ficaram sem elas
por conta da especulação imobiliária.
Essa é pra Natália
que gostava da Carla
e por isso foi parar no sanatório mental.
Pobre sanatório de lúcidos.
Pobre sociedade insana...

Num ponto...


No mundo há seis bilhões de habitantes.
Uns na China, outros na Nigéria ou na Suécia.
Tanta gente.
Seis bilhões
e eu.
Num ponto entre o Atlântico e o pacífico.
Numa rua estreita e torta.
Só.

domingo, 3 de junho de 2012

O choque, a ordem.


Choque de ordem
recolhe o pobre.
Que dorme intranquilo
nos bosques do MAM.
Se tenta sonhar,
não dá: cassetete.
“Pra dentro da van.”
Levado pra onde?
Bem longe.
Aonde a miséria se esconde.
Se fala, de lanche: balas de fuzil.
BRASIL.