Seria muito mais fácil seguir
vivendo minha tranquila e inútil vida, mas não posso. Não dá mais.
Dizem-me que o que quero é uma vida fácil. Fácil? Fácil aonde que não
vejo, não sinto, não quero. Fácil seria estudar, me formar e conseguir
emprego. Fácil é seguir a vida de sempre, de todos. Uma
vida sem pensar, sem questionar, sem ir contra. Por muitas vezes quis
essa vida, ir lá, fazer o que deve ser feito e pronto, ser feliz. Mas
quão difícil é ser feliz quando se enxerga! Podia
simplesmente ter escolhido a felicidade, claro, que estúpida, tirem-me
daqui, ponham-me de volta na minha infância, aonde deveria estar, vamos,
arrependa-se, volte atrás e diga que não quer pensar, escolha, não
escolha, não da mais. Já cai de boca e alma, já rasguei antigas cartas e
já mudei de palavras. Não volto porque não posso, o tickete veio sem
volta e sem nem me perguntar se quero voltar. Pois bem, já fiz minha
escolha a muito tempo. Tranquilidade não tá na lista, ponha a camisa e
vista, pague as contas e se despida. É preciso jogar tudo pela janela
pra não se jogar.
Pois quer saber? Eu escolho a angustia. Escolho
porque sei que no final não tenho a menor chance de escolher. Sei que
escolheram por mim e seguirão escolhendo, por isso escolho algo melhor,
escolho não querer mais escolher.
Vomito, cuspo tudo porque não posso falar. Escrever é o que me salva.
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